Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2013
António Campos - Filme sobre Vilarinho da Furna

Aqui fica o link para o filme de António Campos, sobre Vilarinho da Furna:

http://www.youtube.com/watch?v=_YyJBoRV9Y8

 

É um filme concluído em 1971,  para o qual tive a oportunidade de colaborar. Escrevi, aquando da antestreia para um grupo restrito, na Gulbenkian, onde estava o próprio Jorge Dias, o autor da obra em que o filme se inspira, um pequeno texto, que, mais tarde, veio a ser incluído num dos meus livros. É esse texto que aqui evoco, além do mais, como uma singela homenagem a António Campos, de saudosa memória:

 

VILARINHO DA FURNA, A ALDEIA QUE JÁ SÓ VIVE NO CELULÓIDE

Vilarinho da Furna morreu. A água que era a vida da povoação transformou-se na sua morte. Tal é a tese que ressalta do filme documentário "Vilarinho das Furnas", realizado por António Campos, a quem dei toda a colaboração, e que, há anos, foi estreado em Lisboa. Filme em 16mm, com uma, geralmente, boa fotografia a preto e branco, retrata ao vivo a rudeza da serra agreste que moldou os caracteres de um povo, que encontrara no velho sistema comunitário o melhor meio de sobrevivência. É a luta desse povo, escondido nas ribas do Homem, numa vasta bacia definida pelos contrafortes da Amareia e do Gerês, que António Campos, com uma rara sensibilidade artística, que em nada atraiçoa o realismo da existência, condensou em noventa minutos que evocam séculos de história. Nada escapou ao olhar perspicaz do realizador, que, não obstante a carência de meios com que lutou, conseguiu fazer um filme equilibrado, realista, autêntico. Esta nota de autenticidade perpassa por todo o filme e é ainda mais acentuada pela voz de Aníbal Pereira, um homem do povo que, sem textos pré-fabricados, introduz o espectador, com a simplicidade da sua filosofia, na vida daquela comunidade "sui generis", que passa pelo écran em sequências variadas. Pena é que a sua voz nem sempre acompanhe o ritmo da imagem, andando, por vezes, os dois elementos um pouco dissociados. Mas antes isto do que substituir a voz do povo. António Campos preferiu ouví-la e deixar que nós a ouvíssemos. E fez bem. Mesmo aos pontapés à gramática - se é que não é esta que dá pontapés à língua -, o povo sabe dizer verdades como punhos. É só deixá-lo falar, saber escutá-lo, permitir que ele seja igual a si mesmo. E o povo de Vilarinho foi-o ao viver o seu dia-a-dia numa luta constante contra a natureza para lhe arrancar o sustento, amassado com o suor do seu rosto; na calorosa recepção ao governador do distrito, que não se furtou a ver as misérias e ouvir os protestos de toda uma população expulsa da sua terra, Deus sabe - e eu também - em que condições; na animada discussão com o abade que, à falta de argumentos ditatorialmente mais convincentes, ameaça com castigos do arcebispo; enfim, nas suas manifestações religiosas, com certos ressaibos de paganismo, que facilmente se desculpa a este povo simples, por sabermos que não é ele o único responsável. Tudo isto viu e seleccionou a objectiva de António Campos, para nos mostrar (numa montagem bastante perfeita, em que apenas destoam alguns compassos de espera, de efeito discutível, na ligação de uma ou outra sequência) a vida de Vílarínho da Fuma, nos seus esquemas do passado e problemas do presente, aliás, também passados, porque Vilarinho é, agora, uma aldeía afundada pelo manto mortífero das águas. Mas, embora já se oiça o coaxar das rãs e o crocitar agoirento dos corvos, felizes com a morte que se esconde para além das comportas da barragem, não deixa de ser uma confortável certeza, pelo menos para quem se tem debatido pela salvaguarda do patrimónío etnográfico de Vílarínho da Fuma, saber que Vílarinho continuará presente, na memóría dos homens, graças aos pedaços de vida, esteticamente gravados no celulóíde, pela mão artística de um jovem realizador. (Do livro de Manuel de Azevedo Antunes, Vilarinho da Furna - Uma Aldeia Afundada, A Regra do Jogo, Lisboa, 1985, pp. 71-72).



publicado por MA às 01:01
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